Paço Municipal completa 87 anos como marco histórico e cultural de Santos
No dia 26 de janeiro de 2026, serão celebrados os 480 anos de Santos. A Cidade, porém, não será a única aniversariante, uma vez que a data também marca os 87 anos do Paço Municipal, o Palácio José Bonifácio, cuja inauguração foi em 1939, no centenário da elevação da então Vila de Santos ao status de Cidade.
Sede de diversos departamentos públicos, além de salões e um café aberto ao público, o edifício se ergue imponente na Praça Visconde de Mauá, chamando a atenção dos santistas e turistas que passam pelo local diariamente.

Quem entra no prédio é recebido pelas estátuas de Hermes – ou Mercúrio, seu equivalente romano –, deus do comércio, e de Atena – ou Minerva –, deusa da sabedoria, que guardam o portão principal.

Além dos servidores que trabalham em um dos departamentos distribuídos em seus sete pavimentos, incluindo embasamento e térreo, o local também é frequentado por turistas, que podem fazer uma visita monitorada (aos finais de semana e feriados), ou por quem só quer tomar um café enquanto observa a vista panorâmica do último andar.
INAUGURAÇÃO
Projetado pelo arquiteto Plínio Botelho do Amaral, o prédio foi inaugurado com a presença do então presidente Getúlio Vargas, atendendo uma demanda antiga por um local próprio que centralizasse as atividades da Administração Municipal e, em um primeiro momento, da Câmara.

“O Paço Municipal simboliza a história, a identidade e a democracia de Santos. Mais do que um edifício, o Palácio José Bonifácio representa as lutas, conquistas e a retomada da autonomia da cidade. É um espaço onde decisões importantes foram tomadas, onde a democracia foi reafirmada, e que segue aberto ao diálogo com a população, honrando o legado de José Bonifácio e o compromisso com o futuro de Santos.”, exalta o prefeito Rogério Santos.
ARQUITETURA
Elaborado com linhas clássicas, com influência da arquitetura francesa, a edificação apresenta, internamente, acabamento em mármore italiano e jacarandá, além de lustres de cristal da Bohemia e vitrais com símbolos relacionados à Maçonaria, ordem da qual José Bonifácio fazia parte.

Um dos maiores destaques do conjunto, a Sala Princesa Isabel recebia as sessões da Câmara Municipal até 2011, quando foram realocadas para sede própria. Nela, quatro vitrais simbolizam a Caridade, a Justiça, a Liberdade e a Nacionalidade.

Já o Salão Nobre Prefeito Esmeraldo Tarquínio é ricamente decorado, com a predominância da cor dourada e piso feito em marchetaria e madeiras nobres. A sala contém objetos originais da época da inauguração. Além disso, uma sala guarda os presentes dados à Cidade por comitivas estrangeiras.
NOVOS ESPAÇOS
Em constante modernização e sempre conservando os seus traços originais, o Paço Municipal segue funcionando com novos espaços. Exemplo disso é a Sala de Convivência e Refeitório destinados aos servidores e instalados no quarto andar do prédio, em outubro do ano passado.

Desde 2020, o embasamento do Palácio é a sede do Centro de Controle Operacional (CCO), centralizando os serviços disponibilizados pelo equipamento, que conta com mais de três mil câmeras instaladas em vias e prédios públicos da Cidade.

MANUTENÇÃO
Se as sedes de governos pelo mundo também são chamadas de “casas do povo”, a afirmação faz ainda mais sentido para Pedro Estevão, o coordenador administrativo do Paço, que diz realmente se sentir em casa no local.
É de Pedro e sua equipe a responsabilidade pela manutenção do prédio histórico. Foram eles, por exemplo, que trocaram e realocaram o encanamento que passava por baixo da escadaria do edifício no fim do ano passado, intervenção que preveniu possíveis danos estruturais ao acesso.
O trabalho não é fácil. Tudo deve ser planejado para não comprometer a integridade da arquitetura original do monumento tombado. “Para muitas coisas que fazemos, precisamos pedir autorização ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) para poder mexer, e muitas coisas você não pode mexer”.
Coordenador há um ano, Pedro já trabalha no Paço há oito e conhece bem todas as salas e entradas do local. “É um trabalho muito importante porque Santos é uma cidade histórica e as visitas são constantes. A gente, dentro do possível, tenta conservar o Paço Municipal para que os visitantes venham e saiam falando bem da Cidade. Eu adoro aquilo que eu faço”.
HISTÓRIA
Antes da fundação do Paço, a Administração da Cidade ocupou diversos espaços, como uma edificação na Praça da República, a Casa de Câmara e Cadeia, na Praça dos Andradas, e o palacete no Largo Marquês de Monte Alegre, onde hoje funciona o Museu Pelé.

A história começa ainda em 1547, quando foi criado o Conselho da Vila – posteriormente Câmara –formado pelos fundadores do povoado, que ocupava uma parte desses prédios.

Com a mudança do regime governamental no Brasil, iniciado com a Proclamação da República, em 1889, e a criação dos Conselhos de Intendência – em substituição às Câmaras –, começou um movimento para que fosse construída uma sede que atendesse à estrutura administrativa, e que também fizesse jus ao desenvolvimento pelo qual a Cidade estava passando, impulsionado pelo ciclo do café.
Isso, no entanto, foi dificultado pela falta de verba para concretizar um dos vários projetos propostos. Foi apenas com o financiamento de um empréstimo internacional, com o Bank of London & South America, que o projeto de Plínio Botelho do Amaral, datado de 1936, saiu do papel, tendo levado cerca de dois anos para ser concluído.

Para a historiadora da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams), Lilliam Tavares, a criação do Paço foi importante para acompanhar o crescimento econômico de Santos. “Pensando em como a cidade começou a se desenvolver, impulsionada pela exportação de café realizada pelo Porto e a construção dos canais, era fundamental que a estrutura administrativa acompanhasse esse desenvolvimento, e a construção de uma sede própria, carregada de simbolismos, tanto no âmbito político quanto arquitetônico, tornou o Paço uma importante referência para a Cidade”.
AUTONOMIA
Em seus 87 anos, o Palácio foi testemunha silenciosa de diversos momentos históricos, recebendo em seus corredores prefeitos, presidentes, ministros, diplomatas e demais figuras marcantes para Santos e para o País. Dentre todos os acontecimentos, no entanto, Lilliam destaca a retomada da autonomia da Cidade, em 1983.
Em 1969, auge da ditadura civil-militar que governava o Brasil desde 1964, Santos teve a autonomia política e administrativa cerceada. A Cidade era considerada estratégica por conta de seu Porto e, em contrapartida, contava com forte presença da oposição, alvo do aparelho de repressão do regime, como a eleição do advogado Esmeraldo Tarquínio, liderança ligada ao movimento operário, havia deixado claro um ano antes.
Tarquínio, que hoje nomeia um dos salões nobres, nunca assumiu a Prefeitura, tendo os seus direitos políticos cassados. Com a perda da autonomia, os santistas não puderam escolher o seu prefeito, que passou a ser indicado por Brasília, por um período de quase 15 anos.
Após muita luta e com a gradual redemocratização do País, a Cidade recuperou os seus direitos em 1983, o que foi motivo de festa. A volta das eleições diretas foi consolidada um ano depois, com a posse do prefeito Oswaldo Justo, que tinha sido vice na chapa de Esmeraldo Tarquínio, falecido em 1982. “A retomada foi marcada comemorações em frente ao Paço, sendo este um ato carregado de grande simbolismo, tornando-se um importante marco na história de Santos”, explica a historiadora.

VISITAÇÃO
As visitas monitoradas no Paço Municipal acontecem sempre aos finais de semana, às 14h, de maneira gratuita. Os participantes conhecem o saguão principal, o Salão Nobre Prefeito Esmeraldo Tarquínio, a Sala Princesa Isabel, a sala de presentes de comitivas estrangeiras ou representantes consulares e o CCO.

As inscrições podem ser feitas no link https://www.turismosantos.com.br/pt-br/content/visita-monitorada-ao-palacio-jose-bonifacio. O limite de participantes é de 15 pessoas por grupo, é recomendada a chegada com 15 minutos de antecedência.
CAFÉ
Com vista panorâmica para o Centro Histórico, a Cafeteria Santos Cidade é aberta ao público e funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, no quinto andar do prédio.
